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John Paul II's 1st Apostolic Visit to Portugal

12th - 15th May 1982

Click here to read all Pope John Paul II's words (in Italian & Portuguese) during his pilgrim trip in Portugal, visiting Lisbon, Fatima, Vila Viçosa, Coimbra, the Shrine of Sameiro in Braga, Praça dos Aliados and Porto.

13 de Maio de 1982

Papa João Paulo II - Missa no Santuário de Nossa Senhora do Rosário
- Omelia in italiano

1. “E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A em sua casa” (Io 19, 27)

Com estas palavras termina o Evangelho da Liturgia de hoje, aqui em Fátima. O nome do discípulo era João. Precisamente ele, João, filho de Zebedeu, apóstolo e evangelista, ouviu do alto da Cruz as palavras de Cristo: “Eis a tua Mãe”. Anteriormente, Jesus tinha dito à própria Mãe: “Senhora, eis o Teu filho”.

Este foi um testamento maravilhoso.

Ao deixar este mundo, Cristo deu a Sua Mãe um homem que fosse para Ela como um filho: João. A Ela o confiou. E, em consequência desta doação e deste acto de entrega, Maria tornou-se mãe de João. A Mãe de Deus tornou-se Mãe do homem.

E, a partir daquele momento, João “recebeu-A em sua casa”. João tornou-se também amparo terreno da Mãe de seu Mestre; é direito e dever dos filhos, efectivamente, assumir o cuidado da mãe. Mas acima de tudo, João tornou-se por vontade de Cristo o filho da Mãe de Deus. E, em João, todos e cada um dos homens d’Ela se tornaram filhos.

2. “Recebeu-A em sua casa” – esta frase significa, literalmente, na sua habitação.

Uma manifestação particular da maternidade de Maria em relação aos homens são os lugares, em que Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se sente uma presença toda particular da Mãe.

Estes lugares e estas casas são numerosíssimos. E são de uma grande variedade: desde os oratórios nas habitações e dos nichos ao longo das estradas, onde sobressai luminosa a imagem da Santa Mãe de Deus, até às capelas e às igrejas construídas em Sua honra. Há porém, alguns lugares, nos quais os homens sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não raro, estes locais irradiam amplamente a sua luz e atraem a si a gente de longe. O seu círculo de irradiação pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação inteira, por vezes a vários países e até aos diversos continentes. Estes lugares são os santuários marianos.

Em todos estes lugares realiza-se de maneira admirável aquele testamento singular do Senhor Crucificado: aí, o homem sente-se entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está com a própria Mãe. Abre-Lhe o seu coração e fala-Lhe de tudo: “recebe-A em sua casa”, dentro de todos os seus problemas, por vezes difíceis. Problemas próprios e de outrem. Problemas das famílias, das sociedades, das nações, da humanidade inteira.

3. Não sucede assim, porventura, no santuário de Lourdes na França? Não é igualmente assim, em Jasna Góra em terras polacas, no santuário do meu País, que este ano celebra o seu jubileu dos seiscentos anos?

Parece que também lá, como em tantos outros santuários marianos espalhados pelo mundo, com uma força de autenticidade particular, ressoam estas palavras da Liturgia do dia de hoje:
“Tu és a honra do nosso povo” (Iudit 15,10); e também aquelas outras:
“Perante a humilhação da nossa gente”,
“... aliviaste o nosso abatimento, com a tua rectidão, na presença do nosso Deus”(Iudt 13,20).

Estas palavras ressoam aqui em Fátima quase como eco particular das experiências vividas não só pela Nação portuguesa, mas também por tantas outras nações e povos que se encontram sobre a face da terra; ou melhor, elas são o eco das experiências de toda a humanidade contemporânea, de toda a família humana.

4. Venho hoje aqui, porque exactamente neste mesmo dia do mês, no ano passado, se dava, na Praça de São Pedro, em Roma, o atentado à vida do Papa, que misteriosamente coincidia com o aniversário da primeira aparição em Fátima, a qual se verificou a 13 de Maio de 1917.

Estas datas encontraram-se entre si de tal maneira, que me pareceu reconhecer nisso um chamamento especial para vir aqui. E eis que hoje aqui estou. Vim para agradecer à Divina Providência, neste lugar, que a Mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular.

“Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti” – Foi graças ao Senhor que não fomos aniquilados (Lam 3, 22) – repito uma vez mais com o Profeta.

Vim, efectivamente, sobretudo para aqui proclamar a glória do mesmo Deus:
“Bendito seja o Senhor Deus, Criador do Céu e da Terra”, quero repetir com as palavras da Liturgia de hoje (Iudt 13,18).

E ao Criador do Céu e da Terra elevo também aquele especial hino de glória, que é Ela própria: a Mãe Imaculada do Verbo Encarnado:

“Abençoada sejas, minha filha, pelo Deus Altíssimo / Mais do que todas as mulheres sobre a Terra... / A confiança que tiveste não será esquecida pelos homens, / E eles hão-de recordar sempre o poder de Deus. / Assim Deus te enalteça eternamente” (Ibid 13, 18-20).

Na base deste canto de louvor, que a Igreja entoa com alegria, aqui como em tantos lugares da terra, está a incomparável escolha de uma filha do género humano para ser Mãe de Deus.
E por isso seja sobretudo adorado Deus: Pai, Filho, e Espírito Santo.

Seja bendita e venerada Maria, protótipo da Igreja, enquanto “habitação da Santíssima Trindade”.

5. A partir daquele momento em que Jesus, ao morrer na Cruz, disse a João: “Eis a tua Mãe”, e a partir do momento em que o discípulo “A recebeu em sua casa”, o mistério da maternidade espiritual de Maria teve a sua realização na história com uma amplidão sem limites. Maternidade quer dizer solicitude pela vida do filho. Ora se Maria é mãe de todos os homens, o seu desvelo pela vida do homem reveste-se de um alcance universal. A dedicação de qualquer mãe abrange o homem todo. A maternidade de Maria tem o seu início nos cuidados maternos para com Cristo.

Em Cristo, aos pés da Cruz, Ela aceitou João e, nele, aceitou todos os homens e o homem totalmente. Maria a todos abraça, com uma solicitude particular, no Espírito Santo. É Ele, efectivamente, “Aquele que dá a vida”, como professamos no Credo. É Ele que dá a plenitude da vida, com abertura para a eternidade.

A maternidade espiritual de Maria é, pois, participação no poder do Espírito Santo, no poder d’Aquele “que dá a vida”. E é ao mesmo tempo, o serviço humilde d’Aquela que diz de si mesma: “Eis a serva do Senhor” (Luc 1, 38).

À luz do mistério da maternidade espiritual de Maria, procuremos entender a extraordinária mensagem que, daqui de Fátima, começou a ressoar pelo mundo todo, desde o dia 13 de Maio de 1917, e que se prolongou durante cinco meses, até ao dia 13 de Outubro do mesmo ano.

6. A Igreja ensinou sempre, e continua a proclamar, que a revelação de Deus foi levada à consumação em Jesus Cristo, que é a plenitude da mesma, e que “não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública, antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo.” A mesma Igreja aprecia e julga as revelações privadas segundo o critério da sua conformidade com aquela única Revelação pública.

Assim, se a Igreja aceitou a mensagem de Fátima, é sobretudo porque esta mensagem contém uma verdade e um chamamento que, no seu conteúdo fundamental, são a verdade e o chamamento do próprio Evangelho.

“Convertei-vos (fazei penitência), e acreditai na Boa Nova (Mc 1, 15): são estas as primeiras palavras do Messias dirigidas à humanidade. E a mensagem de Fátima, no seu núcleo fundamental, é o chamamento à conversão e à penitência, como no Evangelho. Este chamamento foi feito nos inícios do século vinte e, portanto, foi dirigido, de um modo particular a este mesmo século. A Senhora da mensagem parecia ler, com uma perspicácia especial, os “sinais dos tempos”, os sinais do nosso tempo.

O apelo à penitência é um apelo maternal; e, ao mesmo tempo, é enérgico e feito com decisão. A caridade que “se congratula com a verdade” (1Cor 13, 6) sabe ser clara e firme. O chamamento à penitência, como sempre anda unido ao chamamento à oração. Em conformidade com a tradição de muitos séculos, a Senhora da mensagem de Fátima indica o terço – o rosário – que bem se pode definir “a oração de Maria”: a oração na qual Ela se sente particularmente unida connosco. Ela própria reza connosco. Com esta oração do terço se abrangem os problemas da Igreja, da Sé de Pedro, os problemas do mundo inteiro. Além disto, recordam-se os pecadores, para que se convertam e se salvem, e as almas do Purgatório.

As palavras de mensagem foram dirigidas a crianças, cuja idade ia dos sete aos dez anos. As crianças, como Bernadette de Lourdes, são particularmente privilegiadas nestas aparições da Mãe de Deus. Daqui deriva o facto de também a sua linguagem ser simples, de acordo com a capacidade de compreenção infantil. As criancinhas de Fátima tornaram-se as interlocutoras da Senhora da mensagem e também as suas colaboradoras. Uma delas ainda está viva.

7. Quando Jesus disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Seu filho” (Io 19, 26), abriu, de maneira nova, o Coração da Sua Mãe, o coração Imaculado, e revelou-Lhe a nova dimensão do amor e o novo alcance do amor a que Ela fora chamada, no Espírito Santo, em virtude do sacrifício da Cruz.

Nas palavras da mensagem de Fátima parece-nos encontrar precisamente esta dimensão do amor materno, o qual com a sua amplitude, abrange todos os caminhos do homem em direcção a Deus: tanto aqueles que seguem sobre a terra, como aqueles que, através do Purgatório, levam para além da terra. A solicitude da Mãe do Salvador, identifica-se com a solicitude pela obra da salvação: a obra do Seu Filho. É solicitude pela salvação, pela eterna salvação de todos os homens. Ao completarem-se sessenta e cinco anos, depois daquele dia 13 de Maio de 1917 é difícil não descobrir como este amor salvífico da Mãe abraça na sua amplitude, de um modo particular, o nosso século.

À luz do amor materno, nós compreendemos toda a mensagem de Nossa Senhora de Fátima.

Aquilo que se opõe mais directamente à caminhada do homem em direcção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus. O programado cancelamento de Deus do mundo do pensamento humano. A separação d’Ele de toda a actividade terrena do homem. A rejeição de Deus por parte do homem.

Na verdade, a salvação eterna do homem somente em Deus se encontra. A rejeição de Deus por parte do homem se se tornar definitiva, logicamente conduz à rejeição do homem por parte de Deus, à condenação.

Poderá a Mãe, que deseja a salvação de todos os homens, com toda a força do seu amor que alimenta no Espírito Santo, poderá Ela ficar calada acerca daquilo que mina as próprias bases desta salvação? Não, não pode!

Por isso, a mensagem de Nossa Senhora de Fátima, tão maternal, se apresenta ao mesmo tempo tão forte e decidida. Até parece severa. É como se falasse João Baptista nas margens do rio Jordão. Exorta à penitencia. Adverte. Chama à oração. Recomenda o terço, o rosário.

Esta mensagem é dirigida a todos os homens. O amor da Mãe do Salvador chega até onde quer que se estenda a obra da salvação. E objecto do Seu desvelo são todos os homens da nossa época e, ao mesmo tempo, as sociedades, as nações e os povos. As sociedades ameaçadas pela apostasia, ameaçadas pela degradação moral. A derrocada da moralidade traz consigo a derrocada das sociedades.

8. Cristo disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Teu filho”. E, com tais palavras, abriu, de um modo novo, o Coração da Sua Mãe.

Pouco depois, a lança do soldado romano trespassou o lado do Crucificado. Aquele coração trespassado tornou-se o sinal da redenção, realizada mediante a morte do Cordeiro de Deus.

O Coração Imaculado de Maria aberto pelas palavras – “Senhora, eis o Teu Filho” – encontra-se espiritualmente com o Coração do Filho trespassado pela lança do soldado. O Coração de Maria foi aberto pelo mesmo amor para com o homem e para com o mundo com que Cristo amou o homem e o mundo, oferecendo-Se a Si mesmo por eles, sobre a Cruz, até àquele golpe da lança do soldado.

Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria Fonte da Vida, nascida no Gólgota. Este Manancial escorre ininterruptamente, dele brotando a redenção e a graça. Nele se realiza continuamente a reparação pelos pecados do mundo. Tal Manancial é sem cessar Fonte de vida nova e de santidade.

Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer, ainda: consagrar este mundo ao Coração trespassado do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção. A Redenção é sempre maior do que o pecado do homem e do que “o pecado do mundo”. A força da Redenção supera infinitamente toda a espécie de mal, que está no homem e no mundo.

O Coração da Mãe está conscio disso, como nenhum outro coração em todo o cosmos, visível e invisível.

E para isso faz a chamada.

Chama não somente à conversão. Chama-nos a que nos deixemos auxiliar por Ela, como Mãe, para voltarmos novamente à fonte da Redenção.

9. Consagrar-se a Maria Santíssima significa recorrer ao seu auxílio e oferecermo-nos a nós mesmos e oferecer a humanidade Àquele que é Santo, infinitamente Santo; valer-se do seu auxílio – recorrendo ao seu Coração de Mãe aberto junto da Cruz ao amor para com todos os homens e para com o mundo inteiro – para oferecer o mundo, e o homem, e a humanidade, e todas as nações Àquele que é infinitamente Santo. A santidade de Deus manifestou-se na redenção do homem, do mundo, da inteira humanidade e das nações: redenção esta que se realizou mediante o sacrifício da Cruz.“ Por eles, Eu consagro-me a Mim mesmo”, tinha dito Jesus” (Io 17, 19).

O mundo e o homem foram consagrados com a potência da Redenção. Foram confiados Àquele que é infinitamente Santo. Foram oferecidos e entregues ao próprio Amor, ao Amor misericordioso.

A Mãe de Cristo chama-nos e exorta-nos a unir-nos à Igreja do Deus vivo, nesta consagração do mundo, neste acto de entrega mediante o qual o mesmo mundo, a humanidade, as nações e todos e cada um dos homens são oferecidos ao Eterno Pai, envoltos com a virtude da Redenção de Cristo. São oferecidos no Coração do Redentor trespassado na Cruz.

A Mãe do Redentor chama-nos, convida-nos e ajuda-nos para nos unirmos a esta consagração, a este acto de entrega do mundo. Então encontrar-nos-emos, de facto, o mais próximo possível do Coração de Cristo trespassado na Cruz.

10. O conteúdo do apelo de Nossa Senhora de Fátima está tão profundamente radicado no Evangelho e em toda a Tradição, que a Igreja se sente interpelada por essa mensagem.

Ela respondeu à interpelação mediante o Servo de Deus Pio XII (cuja ordenação episcopal se realizara precisamente a 13 de Maio de 1917), o qual quis consagrar ao Imaculado Coração de Maria o género humano e especialmente os Povos da Rússia. Com essa consagração não terá ele, porventura, correspondido à eloquência evangélica do apelo de Fátima?

O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a Igreja “Lumen Gentium” e na Constituição pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo “Gaudium et Spes” explicou amplamente as razões dos laços que unem a Igreja com o mundo de hoje. Ao mesmo tempo os seus ensinamentos sobre a presença especial de Maria no mistério de Cristo e da Igreja, maturaram no acto com que Paulo VI, ao chamar a Maria também Mãe da Igreja, indicava de maneira mais profunda o carácter da sua união com a mesma Igreja e da Sua solicitude pelo mundo, pela humanidade, por cada um dos homens e por todas as nações: a sua maternidade.

Deste modo, foi ainda mais aprofundada a compreensão do sentido da entrega, que a Igreja é chamada a fazer, recorrendo ao auxílio do Coração da Mãe de Cristo e nossa Mãe.

11. E como é que se apresenta hoje diante da Santa Mãe que gerou o Filho de Deus, no seu Santuário de Fátima, João Paulo II, sucessor de Pedro e continuador da obra de Pio, de João e de Paulo e particular herdeiro do Concílio Vaticano II?

Apresenta-se com ansiedade, a fazer a releitura, daquele chamamento materno à penitência e à conversão, daquele apelo ardente do Coração de Maria, que se fez ouvir aqui em Fátima, há sessenta e cinco anos. Sim, relê-o, com o coração amargurado, porque vê quantos homens, quantas sociedades e quantos cristãos foram indo em direcção oposta àquela que foi indicada pela mensagem de Fátima. O pecado adquiriu assim um forte direito de cidadania e a negação de Deus difundiu-se nas ideologias, nas concepções e nos programas humanos!

E precisamente por isso, o convite evangélico à penitência e à conversão, expresso com as palavras da Mãe, continua ainda actual. Mais actual mesmo do que há sessenta e cinco anos atrás. E até mais urgente. É por isso também que tal convite será o assunto do próximo Sínodo dos Bispos, no ano que vem, Sínodo para o qual já nos estamos a preparar.

O sucessor de Pedro apresenta-se aqui também como testemunha dos imensos sofrimentos do homem, como testemunha das ameaças quase apocalípticas, que pesam sobre as nações e sobre a humanidade. E procura abraçar esses sofrimentos com o seu fraco coração humano, ao mesmo tempo que se põe bem diante do mistério do Coração: do Coração da Mãe, do Coração Imaculado de Maria.

Em virtude desses sofrimentos, com a consciência do mal que alastra pelo mundo e ameaça o homem, as nações e a humanidade o sucessor de Pedro apresenta-se aqui com uma maior na redenção do mundo: fé naquele Amor salvífico que é sempre maior, sempre mais forte do que todos os males.

Assim, se por um lado o coração se confrange, pelo sentido elo pecado do mundo, bem como pela série de ameaças que aumentam no mundo, por outro lado, o mesmo coração humano sente-se dilatar com a esperança, ao pôr em prática uma vez mais aquilo que os meus Predecessores já fizeram: entregar e confiar o mundo ao Coração da Mãe, confiar-Lhe especialmente aqueles povos, que, de modo particular, tenham necessidade disso. Este acto equivale a entregar e a confiar o mundo Àquele que é Santidade infinita. Esta Santidade significa redenção, significa amor mais forte do que o mal. Jamais algum “pecado do mundo” poderá superar este Amor.

Uma vez mais. Efectivamente, o apelo de Maria não é para uma vez só. Ele continua aberto para as gerações que se renovam, para ser correspondido de acordo com os “sinais dos tempos” sempre novos. A ele se deve voltar incessantemente. Há que retomá-lo sempre de novo.

12. Escreve o Autor do Apocalipse:

“Vi depois a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, pronta como noiva adornada para o seu esposo. E, do trono, ouvi uma voz potente que dizia: Eis a morada de Deus entre os homens. Deus há-de morar entre eles: eles mesmos serão o Seu povo e Ele próprio – Deus-com-eles – será o Seu Deus” (Apoc 21, 2ss).

A Igreja vive desta fé.

Com tal fé caminha o Povo de Deus.

“A morada de Deus entre os homens” já está sobre a terra.

E nela está o Coração da Esposa e da Mãe, Maria Santíssima, adornado com a gema da Imaculada Conceição: o Coração da Esposa e da Mãe, aberto junto da Cruz pela palavra do Filho, para um novo e grande amor do homem e do mundo. O Coração da Esposa e da Mãe, cônscio de todos os sofrimentos dos homens e das sociedades sobre a face da terra.

O Povo de Deus é peregrino pelos caminhos deste mundo na direcção escatológica. Está em peregrinação para a eterna Jerusalém, para a “morada de Deus entre os homens”.

Lá, onde Deus “há-de enxugar-lhes dos olhos todas as lágrimas; a morte deixará de existir, e não mais haverá luto, nem clamor, nem fadiga. O que havia anteriormente desapareceu” (Cf Apoc 21, 4).

Mas “o que havia anteriormente” ainda perdura. E é isso precisamente que constitui o espaço temporal da nossa peregrinação.

Por isso, olhemos para “Aquele que está sentado no trono” que diz: “Vou renovar todas as coisas.”

E juntamente com o Evangelista e Apóstolo procuremos ver com os olhos da fé “o novo céu e a nova terra”, porque o “primeiro céu e a primeira terra” já passaram...

Entretanto, até agora, “o primeiro céu e a primeira terra” continuam, estando sempre à nossa volta e dentro de nós. Não podemos ignorá-lo. Isso permite-nos, no entanto reconhecer que graça imensa foi concedida ao homem quando no meio deste peregrinar, no horizonte da fé dos nossos tempos, se acendeu esse “Sinal grandioso: uma Mulher”!

Sim, verdadeiramente podemos repetir: “Abençoada sejas, filha, pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres sobre a Terra!

... Procedendo com rectidão, na presença do nosso Deus,
... Aliviaste o nosso abatimento”.

Verdadeiramente, Bendita sois Vós!

Sim, aqui e em toda a Igreja, no coração de cada um dos homens e no mundo inteiro: sede bendita ó Maria, nossa Mãe dulcíssima!

14 de maio de 1982 - Lisboa

Papa João Paulo II - Missa para os Jovens
- Omelia in italiano

"O Reino de Deus está próximo!

Sim! “Dizei a todos: está próximo de vós o Reino de Deus!” (Luc 10, 9).

Foi com estas palavras que Jesus Cristo, ao enviar em missão os setenta e dois discípulos, lhes recomendou que anunciassem a Mensagem, como acabámos de ouvir no Evangelho de hoje.

Mas estas palavras são dirigidas também aos cristãos de todos os tempos: a nós, portanto, que estamos aqui reunidos em nome do Senhor, em continuidade com os discípulos que as ouviram directamente.

São dirigidas especialmente a vós, jovens, que aqui vos encontrais, esta tarde em tão grande número, cheios de entusiasmo e alegria, manifestando a vossa disponibilidade a Cristo e o vosso desejo de construir um mundo mais humano e cristão. Vós sois depositários desta grande esperança da humanidade, da Igreja e do Papa. Deus deu-me a graça da amar muito os jovens.

Por isso, gostaria de falar-vos como um amigo fala ao seu amigo, com cada um individualmente, olhos nos olhos, de coração a coração. “O Reino de Deus está próximo!”. E quase me atreveria a dizer: estas palavras são dirigidas especialmente a vós jovens portugueses, filhos de um povo de missionários que, por todo o mundo, levaram essa mesma mensagem, como acentuou o Senhor Cardeal Patriarca, Dom António Ribeiro.

Obrigado, Senhor Cardeal, pelas suas palavras. Elas confortam-me e tomo-as como promessa de continuidade, ao retribuir, a todos cujos sentimentos interpretou, as saudações. E, nesta hora, rendo homenagem de gratidão, em nome de toda a Igreja, à grande gesta evangelizadora de Portugal missionário.

O Reino de Deus está verdadeiramente próximo! Aproximou-se do homem de modo definitivo. Está entre nós e está dentro de nós.

A proximidade do Reino de Deus reside, antes de mais, no facto de Deus ter vinho e ter assumido a natureza humana. Está próximo em Cristo; está próximo por meio de Cristo. N’Ele, com efeito, o Reino está tão perto de nós, que, em certo sentido, se torna difícil imaginar uma aproximação maior e mais íntima. Poderia Deus estar mais próximo do homem do que fazendo-Se Homem?

Estando assim tão próximo, em Cristo, nosso Senhor e Salvador, o Reino de Deus está sempre diante do homem. É proposto aos homens, como uma missão a realizar, uma meta a alcançar. Nas diversas dimensões da sua existência, os homens podem, pois, aproximar-se dele ou dele afastar-se. Antes de mais, podem chegar a alcançá-lo em si próprios, e realizá-lo dentro de si.

Mas podem também perdê-lo de vista, desviar-se da sua perspectiva. Podem até actuar contra ele. Podem mesmo propender para afastá-lo do homem; podem afastar o homem dele, e subtrair-lho.

E no entanto, Cristo veio ao mundo para introduzir os homens no Reino de Deus, para inserir o Reino nos corações dos homens e no meio deles. Mais: Cristo confiou mesmo este Reino aos homens. Chamou-os para o trabalho pelo Reino de Deus. E este trabalho tem o nome de evangelização.

2. A palavra “evangelização” vem de “Evangelho”, que significa “Boa Nova”. O Reino de Deus constrói-se sobre este fundamento da Boa Nova. Mais ainda: ele mesmo é Boa Nova. É o Anúncio da salvação definitiva do homem. E aqui, poder-se-ia perguntar: o que é a “salvação”?

Detenhamo-nos nas palavras de Isaías, ouvidas na primeira leitura da Santa Missa de hoje:
“O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor me ungiu. Enviou-me a levar a boa nova aos que sofrem, a curar os de coração triste, a anunciar a libertação aos cativos e aos prisioneiros a liberdade, a proclamar um ano de graça do Senhor” (Is 61, 1-2).

Estas palavras do Profeta permaneceram muitos séculos à espera do momento de serem lidas, na sinagoga de Nazaré, por Aquele que era tido como o “Filho do Carpinteiro”: Jesus de Nazaré. E Ele, depois de as ler, disse: “cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir com os vossos ouvidos” (Luc 4, 21).

As palavras de Isaías, que Jesus de Nazaré tomaria como programa da sua missão, contêm precisamente a boa nova acerca da salvação.

O que é pois a salvação? É a vitória do bem sobre o mal, realizada no homem, em todas as dimensões da sua existência. A própria superação do mal já tem um carácter salvífico. A forma definitiva da salvação consistirá para o homem em libertar-se completamente do mal e em alcançar a plenitude do bem. Esta plenitude chama-se e é de facto a salvação eterna. Realiza-se no Reino de Deus como uma realidade escatológica de vida eterna. É uma realidade do “tempo futuro” que, mediante a cruz de Cristo, se iniciou na sua Ressurreição.

Todos os homens são chamados à Vida eterna. São chamados à salvação.

Tendes consciência disto? Tendes consciência disto vós, jovens meus amigos: que todos os homens estão chamados a viver com Deus e que, sem Ele, perdem a chave do “mistério” de si mesmos?

3. Esta chamada à salvação é trazida por Cristo. Ele tem para o homem “palavras de vida eterna” (Io 6, 68); e dirige-se ao homem tal qual é, situado em circunstâncias muito variadas: dirige-se ao homem concreto que vive na terra. Dirige-se particularmente ao homem que sofre, no corpo ou na alma.

Ele vem, como ouvimos na primeira leitura, a “consolar os que choram... a dar aos que estão tristes uma coroa em vez de cinzas, óleo de alegria em vez de luto, glória em vez de desespero” (Is 61, 2-3).

Mas dirige-se também a vós, jovens!

Sim, a vós jovens: porque no vosso espírito está impressa, de modo particular, a problemática essencial da salvação, com todas as suas esperanças e tensões, sofrimentos e vitórias.

É sabido quanto vós sois sensíveis à tentação entre o bem e o mal, que existe no mundo e em vós próprios. No íntimo de vós mesmos, sofreis ao ver o triunfo da mentira e da injustiça; sofreis, por vos sentirdes incapazes de fazer triunfar a verdade e a justiça; sofreis, por vos descobrirdes, ao mesmo tempo, generosos e egoístas. Desejaríeis servir e colaborar sempre com as iniciativas em favor dos oprimidos, mas... sentis-vos traídos por tantas coisas e aliciados por outras que vos quebram as asas. Espontaneamente sois levados a rejeitar o mal e a desejar o bem. Mas, algumas vezes tendes dificuldade em ver e em aceitar que para chegar ao bem é preciso passar pela renúncia, o esforço, a luta, a cruz; sucedeu com aquele jovem que, desejando a perfeição e querendo seguir Jesus, não conseguia compreender e aceitar que era necessário renunciar aos bens materiais.

Contudo, caros jovens, para além destas tensões, possuís uma aptidão quase co-natural para evangelizar. Porque a evangelização não se faz sem entusiasmo juvenil, sem juventude no coração, sem um conjunto de qualidades em que a juventude é pródiga: alegria, esperança, transparência, audácia, criatividade, idealismo... Sim, a vossa sensibilidade e a vossa generosidade espontânea, a tendência para tudo o que é belo, tornam cada um de vós um “aliado natural” de Cristo. Para mais, só em Cristo encontrareis resposta aos próprios problemas e inquietações. E vós sabeis porquê: Ele foi o homem que mais amou; e deixou-nos um “código” do amor, o seu Evangelho que, lido pelo Concílio, “... proclama a liberdade dos filhos de Deus; rejeita toda a escravidão, derivada, em última análise, do pecado; respeita integralmente a dignidade da consciência e a sua livre decisão; sem cessar, recorda que todos os talentos humanos devem redundar em serviço de Deus e dos homens; e, finalmente, a todos recomenda a caridade.”

No fim de contas, só o amor salva. E repito: a problemática da salvação – isto é, a vitória do bem sobre o mal – é um tema fundamental da vida humana. A vida do homem desenrola-se inteiramente na órbita desse apelo. Por isso, o tema “salvação” é daqueles que estão inscritos, de modo particular, na alma dos jovens. Importa saber fazer a sua leitura com perspicácia e desenvolvê-lo honestamente, em vida e obras.

4. A salvação é uma missão. Cristo veio para nos dizer que a salvação – isto é, o Reino de Deus – é uma missão. Veio também para nos ensinar como a devemos desempenhar.

Aos setenta e dois discípulos, que envia “dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares onde Ele havia de ir”, Cristo diz: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe” (Luc 10, 2).

A Igreja recorda-nos estas palavras frequentemente. Recorda-as, de modo particular, para nos convidar à oração pelas vocações sacerdotais e religiosas, pelas vocações missionárias.

Mas, caros jovens, não basta rezar para que o Senhor desperte vocações. É preciso estar pessoalmente atento ao apelo que Ele quiser dirigir-vos; é preciso que não falte a coragem para responder generosamente a esse chamamento. As comunidades cristãs necessitam de sacerdotes que as alimentem com a Palavra e o Corpo de Cristo, precisam da vida religiosa, que seja sinal de Deus e oblação a Deus em benefício dos irmãos. E vós não desejareis prolongar a presença do Senhor no mundo de hoje, responder aos pequeninos que buscam quem lhes parta o pão e não encontram?

Falar da evangelização, recordar a tarefa missionária aqui, em Portugal, é evocar um dos aspectos mais positivos da história do vosso país. Daqui saíram tantos missionários, vossos antepassados, que foram levar a Boa Nova da salvação o outros homens. Do Oriente ao Ocidente (Japão, Índia, África, Brasil...); e ainda hoje são visíveis os frutos dessa missionação. E muitos destes missionários eram jovens como vós. Como não lembrar, entre outros, aqui em Lisboa, o exemplo de São João de Brito, jovem lisboeta, que, deixando a vida fácil da corte, partiu para a Índia, a anunciar o evangelho da salvação aos mais pobres e desprotegidos, identificando-se com eles, e selando a sua fidelidade a Cristo e aos irmãos com o testemunho do martírio?

Rapazes e raparigas de Portugal: levantai os olhos e vede “a seara loirejante para a ceifa”, à espera de braços para o “trabalho”.

5. Falámos do sacerdócio, da vida religiosa e do trabalho missionário, como formas de vocação que têm importância particular em ordem à evangelização, e pelas quais a Igreja reza de modo especial. Sente-se chamada a esta oração pelas palavras do Senhor: “pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe” (Luc 10, 2).

Mas as palavras do Senhor Jesus acerca da “messe grande” e dos trabalhadores, devemos entendê-las num sentido ainda mais fundamental e, ao mesmo tempo, mais amplo do que o indicado pelos géneros de vocações na Igreja que acabamos de mencionar.

Falando da “messe”, da “messe grande” e dos “trabalhadores”, Cristo quer, antes de mais, fazer compreender aos seus ouvintes que o “Reino de Deus”, isto é, a “salvação”, é a grande tarefa de todo o homem. Cada pessoa deve sentir-se “trabalhador”, protagonista da própria salvação: o trabalhador que é chamado para a “messe”. Cada pessoa deve “ganhar” honestamente esta salvação. E isto é essencial também para toda a obra da evangelização.

“Messe” que dizer, portanto, realizar em si próprio a missão de evangelizar. Cada pessoa é chamada pela palavra de Deus a este género de trabalho; é chamado em especial cada jovem – rapaz ou rapariga. Não podemos evangelizar os outros, se primeiro não estamos nós evangelizados. Não podemos colaborar na salvação dos outros, se primeiro não entramos nós pelos caminho da salvação.

Encetámos esta caminhada da salvação no dia do nosso Baptismo, quando, renunciando ao mal, escolhemos o bem, em Jesus Cristo; começamos a viver a Vida Nova, fruto da sua Morte e Ressurreição. Esta Vida deve desenvolver-se sempre. Para isso, Ele ficou connosco, na Igreja: ficou especialmente nos Sacramentos; ficou na Eucaristia e na Penitência.

Vós todos, vós amigos jovens, apreciais estas fontes da Vida? Sabeis corresponder ao convite de Jesus – o Pão da Vida! – participando conscientemente na Eucaristia, com o desejo de viver em plenitude, de vencer o mal e alcançar o bem? E, quando é necessário, por causa do pecado, da imperfeição ou da fraqueza, sabeis trilhar o caminho da conversão e da reconciliação, buscando o sacramento da Penitência, o perdão e a Vida? Formai a vossa consciência e sede fiéis ao Senhor, que ama e perdoa!

6. À medida que empreendemos o “trabalho em nós próprios”, vemos claramente que não podemos ser “trabalhadores da própria salvação”, sem pensarmos simultaneamente nos outros. O problema da própria salvação está ligado organicamente à questão da salvação dos outros. E também isto é essencial para a evangelização.

O homem começa a sua vida a receber. Ao nascer acha-se inserido num mundo feito pelos outros, principalmente pelos mais próximos: pais, irmãos e irmãs. A criança recebe aí praticamente tudo, desde o alimento até à formação. Aí aprende a falar, a caminhar e a conviver. Ao descobrir as suas riquezas e capacidades, o jovem procura ultrapassar esta fase infantil do receber para passar à fase do dar. Não se contenta com o mundo que recebeu. Quer criar o “seu mundo”. É o momento da grande opção da vida. É o momento em que se desenha e se prepara a orientação básica a imprimir ao resto da vida.

Esta passagem, do receber ao dar, da dependência ao assumir a própria responsabilidade, não se dá sem crise. Mas é sobretudo crise de crescimento e de amadurecimento. Muitas vezes o jovem não é entendido, nem se entende a si mesmo. Já não quer ser tratado como criança; mas sente que ainda não é adulto. Muitas vezes vacila no seu interior.

Por outro lado, tudo parece despertar nele: descobre os valores, o sexo, o amor e o ideal; e descobre também a verdadeira dimensão da fé. Grandiosas descobertas para vós, queridos jovens!

O mundo já não vos aparece como mito, mas como grande tarefa que se vos impõe; a vossa vida já não se apresenta apenas como dom. Torna-se empenho. A vossa atitude não se reduz a esperar tudo pronto.

Duas grandes preocupações vos interpelam, na perspectiva do futuro: a preparação para a profissão e a preparação para o estado de vida. Estas duas preocupações absorvem-vos particularmente, às vezes até à impaciência. A vossa tensão de jovens pode resumir-se entre o “já” e o “ainda não”. Já sentis responsabilidade, mas ainda não tendes oportunidades para demonstrá-la. Já quereis contribuir eficazmente para o bem comum, tanto com ideias como com obras, mas ainda não se deparam as ocasiões.

Ora é exactamente neste momento, no grande momento da opção e preparação do vosso futuro, que mais precisais de Cristo. E, guiados por Ele, podereis escolher a vossa profissão e o vosso futuro, tendo em vista o bem comum e as exigências do reino de Deus, as exigências da fé. Sois chamados a “trabalhar” na salvação dos outros ao mesmo tempo que “trabalhais” na vossa salvação. Soi chamados a ser apóstolos, a evangelizar a Boa Nova, sejam quais forem as vossas opções para o futuro.

Sede generosos: escolhei com amor e preparai-vos bem. Preparai-vos para a profissão, honesta e dignamente; preparai-vos para o estado de vida que ireis abraçar; e se optardes pelo matrimónio, fazei-o com seriedade e com respeito por quem um dia há-de compartilhar convosco a vida e os ideais da família segundo Deus.

7. Na verdade, a “messe é grande”. Importa somente que cada um de nós se torne aquele “trabalhador” autenticamente evangélico. A “messe” indica o fruto do trabalho humano. Mas indica, ao mesmo tempo, o dom que vem até nós, por meio da criação.

A salvação que Cristo põe diante do homem como sua missão é, simultaneamente, um dom, é sobretudo um dom.

“...Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo” (Act 1, 8). São estas as últimas palavras que, segundo os Actos dos Apóstolos, Cristo Ressuscitado pronunciou sobre a terra, antes da sua ascensão ao Céu. Encontramo-nos no período litúrgico que vai da Ressurreição à Vinda do Espírito Santo: por isso, tais palavras revestem-se para nós de especial actualidade.

É do Espírito Santo que os homens recebem a força para se salvarem. Isto é, a salvação que é para o homem tarefa pessoal e comunitária, há-de ser realizada com a força do Espírito Santo. Por isso, ela significa, ante de mais, um dom. É um grande dom no qual Deus partilha com o homem algo que é essencialmente Seu. Em certo sentido, “dá-Se a si mesmo ao homem”: dá-Se a si mesmo em Cristo.

Dá-Se para ser aquela força de verdade e de amor, que forma o “homem novo”, capaz de transformar o mundo: verdade que, manifestando-se como exigência da consciência e da dignidade humana, dita as opções do amor, amor que aproxima, faz união, eleva, constrói e salva, quando damos as mãos aos outros em fraternidade humana, cristã e eclesial. Dá-Se, em particular nos Sacramentos – Baptismo, Confirmação, Penitência, Eucaristia – pelos quais é conferido ou aumentado o dom que, do Cenáculo chegou até nós, como Pão da Vida e como “Força”, que nos enriquece, dia após dia, até ressuscitarmos para a Vida eterna, com Cristo, para vivermos junto do Pai.

Assim, devemos acolher sempre a salvação como um Dom, e, ao, mesmo tempo, a ela nos devemos aplicar como a uma missão.

Quanto mais consciência tivermos da grandeza do Dom, tanto mais ardentemente assumimos a missão, tanto mais a sério nos tornamos os “trabalhadores da messe”. Aqui está o fundo da questão; é esta a contextura vital da evangelização.

8. Cristo Ressuscitado chama os seus discípulos à evangelização, dizendo-lhes: “sereis minhas testemunhas” (Act 1, 8). Eis a palavra-chave!

Tornamo-nos testemunhas de Cristo, quando, como nos discípulos do Evangelho, amadurece em nós o problema da salvação, o problema do chamamento ao Reino de Deus. Quando o acolhemos, dele nos apropriamos e nos identificamos com ele. Quando ele dá forma a toda nossa vida e ao nosso modo de agir.

Jovens, rapazes e raparigas, filhos de Portugal dos nossos dias:

Olhai para tantos que vos precederam no passado, também eles filhos desta Pátria. Filhos da sua cultura e da sua língua. Das suas provações e da suas vitórias.

Quantos deles responderam, com a doação total da vida, ao apelo de Cristo! Da Rainha Santa Isabel a João de Deus, de António de Lisboa a João de Brito – para falar só de santos canonizados – por caminhos diferentes, todos eles se moveram na caridade de Deus, enamorados do ideal da verdade e do amor, movidos pelo Espírito e Cristo. E quem poderá dizer, perante o vosso entusiasmo e alegria, que os jovens portugueses de hoje são menos interessados, menos disponíveis e menos atentos a Cristo que os do passado? Sim, Cristo confia em vós! A Igreja confia em vós! O Papa confia em vós!

Acolhei, amados jovens, acolhei uma vez mais o chamamento de Cristo: Sede testemunhas d’Ele!"