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John Paul II's Apostolic Visit to Portugal

10th - 13th May 1991

Click here to read all Pope John Paul II's words (in Italian and Portuguese) during his pilgrim trip in Portugal, visiting Lisbon, Terceira Island and the Ponta Delgada Island in the Azores Archipelago, Funchal in the Island of Madeira, and Fatima (for the Feast of Our Lady of Fatima and the 10th annivesary of his assasination attempt on his life).

10 de Maio de 1991 - Lisboa

Papa João Paulo II - Discorso ao Corpo Diplomático:

"Excelências, Senhoras e Senhores,

O desejo de corresponder ao convite, insistentemente repetido pelas comunidades cristãs dos Açores e da Madeira, trouxe-me de novo a este País, que hoje fidalgamente nos hospeda a todos nós. Nas celebrações dos Cinco Séculos de Evangelização e Encontro de Culturas, é com alegria e devoção profunda que visito estas Regiões periféricas mais ocidentais da Europa, onde nos primeiros anos do século XV se começou a cruzar o caminho para o Atlântico Sul e para a América.

Importância particular atribuo a este Encontro convosco, obreiros credenciados das boas relações entre os Povos. A vossa tarefa nobre e complexa, a favor de uma humanização sempre maior das relações internacionais, é vista com real simpatia pela Santa Sé, que sente como seu dever partilhar e apoiar a vossa missão diplomática. Agradeço ao vosso Decano, Monsenhor Luciano Angeloni, as cordiais expressões de Boas Vindas e os votos que houve por bem formular-me. Apresento a minha saudação deferente e solidária aos Estados, de que sois dignos Representantes no estrangeiro; cumprimento também as Senhoras e Senhores aqui presentes.

Agradeço-vos a atenção e compreensão amistosa que tendes dedicado, tanto à acção conduzida pela Santa Sé em favor das relações internacionais, como aos princípios básicos que a norteiam, e que se inserem no âmbito mais vasto da Doutrina Social da Igreja, à qual dedicamos especialmente este ano, em que ocorre o centenário da Encíclica “Rerum Novarum” do nosso venerando predecessor Leão XIII. Esta encíclica constituiu um documento fundamental para o desenvolvimento do ensino e da pastoral social da Igreja no nosso tempo, cuja concretização mais recente é a Encíclica “Centesimus Annus”, publicada há poucos dias.

O nosso magistério social baseia-se no homem, inspira-se no homem, considerando-o protagonista na construção da sociedade. Trata-se, porém, do homem criado à imagem e semelhança de Deus, e chamado a plasmar essa imagem na sua vida individual e comunitária. Nesta perspectiva, a Igreja apresenta um ideal de sociedade solidária e em função do homem aberto à transcendência, ajudando-o a descobrir a verdade que o fará feliz, no meio das diversas propostas das ideologias dominantes.

O empenho e a missão da Igreja a favor de uma ética política mais acentuada, hoje tanto mais necessária quanto mais se dispõe de grande variedade de meios técnicos, levam-me a referir-vos os direitos do homem individuais e sociais. Seja assegurado o respeito desses direitos sempre e em toda a parte, não só por motivos de conveniência política, mas em virtude do respeito profundo que é devido a toda e qualquer pessoa, por ser criatura de Deus, dotada de uma dignidade única e chamada a um destino transcendente! Toda a ofensa a um ser humano é também uma ofensa a Deus, e responder-se-á por ela diante do Senhor, justo Juiz dos actos e das intenções.

De entre esses direitos, gostava de fazer sobressair o da liberdade da consciência humana, apenas ligada à verdade, seja natural ou revelada, porque, em alguns países, emergem novas formas de fundamentalismo e intolerância, que, em nome de pseudomotivações de religião, de raça, e até de Estado, atentam contra a dignidade da pessoa, a liberdade de crença, a identidade cultural e a mútua compreensão humana. “Num mundo como o nosso, onde é raro que a população de uma Nação pertença a uma única etnia ou a uma só religião, é primordial para a paz interna e internacional que o respeito da consciência de cada um seja um princípio absoluto.” Os vossos Países consolidar-se-ão na promoção de uma cuidadosa educação para o respeito pelo outro, tendo como meios o conhecimento de outras culturas e religiões e a equilibrada compreensão das diversidades existentes.

Excelências, Senhoras e Senhores,

Desejo formular os mais venturosos votos aos povos que representais, às Autoridades que vos nomearam, a vós próprios, e aos vossos colaboradores e familiares. Prometo-vos a minha prece a Deus Pai de todos os homens, para que as luzes e energias do Alto tornem possível esta magnânima concentração de inteligências, vontades e trabalho criativo, exigida imperiosamente pela actual encruzilhada das Nações."

Domingo, 12 de Maio de 1991

Papa João Paulo II - Vigília de Oração no Santuário de Nossa Senhora de Fátima
- in italiano qui

Senhor Bispo de Leiria-Fátima, Dom Alberto,
Senhores Cardeais, Arcebispos e Bispos, 
Amados irmãos e irmãs, peregrinos de Nossa Senhora de Fátima
!

Sentimo-nos bem aqui neste Solar de Maria... Esta multidão inumerável de peregrinos com as velas da fé acesas e o terço nas mãos confirma-me que cheguei a Fátima, ao Santuário da Mãe de Deus e dos homens. Senhor Dom Alberto, ao pastorear esta diocese abençoada, cabe-lhe fazer as honras da casa. Muito obrigado pela sua cordial saudação de Boas Vindas. Venho ajoelhar-me mais uma vez aos pés de Nossa Senhora de Fátima, agradecer-lhe o Seu desvelo sobre os caminhos dos homens e das Nações e as maravilhas e bênçãos do Todo-Poderoso realizadas n’Ela, a Omnipotência suplicante. Viva sempre em vossos corações Jesus Cristo qual facho luminoso a indicar o caminho da Terra Prometida!

1. “Salve, ó Mãe Santa: Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos sem fim! (Sollemnitas Matris Dei: “Ant. ad Introitum”)".

Naquele memorável dia 25 de Março de 1984, Vós, ó Mãe Santa, dignastes-vos fazer-nos a graça da Vossa Visita a nossa Casa, a Basílica de São Pedro, para quase visivelmente depormos no Vosso Coração Imaculado o nosso Acto de consagração do mundo, da grande família humana, de todos os povos.

Hoje, com esta multidão de irmãos, vim junto do Vosso Trono aclamar-Vos: Salve, ó Mãe Santa! Salve, ó Esperança segura que nunca decepciona! Totus tuus, ó Mãe! Obrigado, Celeste Pastora, por terdes guiado com carinho maternal os povos para a liberdade! A Vós, Maria, totalmente dependente de Deus e orientada para Ele, ao lado do Seu e Vosso Filho, saudamos como “o ícone mais perfeito da liberdade e da libertação da humanidade e do universo” (Congr. pro Doctrina Fidei Libertatis Conscientia, 97)!

2. Estimados irmãos e irmãs,

A caminho do Além, impelidos pela força inexorável do tempo, temos necessidade de verificar o rumo, o sentido de Deus, para que os nossos passos de peregrino não esmoreçam nem errem a estrada, e os nossos ombros não carreguem outro fardo que não seja o de Jesus Cristo. Impõe-se uma pausa, um momento de recolhimento, de transformação pessoal, de renovação interior. Fátima, na sua mensagem e na sua bênção, é conversão a Deus. Aqui se sente e testemunha a Redenção do homem, pela intercessão e com o auxílio d’Aquela que com o Seu pé virginal sempre esmagou e esmagará a cabeça da serpente antiga.

Aqui se pode encontrar o ponto de referência para o testemunho de muitos homens e mulheres que, em circunstâncias difíceis e até frequentemente na perseguição e na dor, permaneceram fiéis a Deus, com os olhos e o coração postos na Virgem Maria, que é “a primeira entre os humildes e pobres do Senhor que confiadamente esperam a salvação de Deus” (Lumen Gentium, 55). Nossa Senhora foi, com efeito, para multidões de crentes, assim tão duramente provados no infortúnio, o penhor por excelência da sua fidelidade e a certeza da salvação, visto que, “por Eva, foi fechada aos homens a porta do céu, mas a todos foi de novo aberta por Maria” (Laudes Dominae Nostrae: “Ant. ad Benedictus”).

Na verdade, “o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria; e aquilo que a virgem Eva atou, com a sua incredulidade, a Virgem Maria desatou-o com a sua fé” (S. Irenaei Adversus Haereses, III, 22, 4). Fé, sim, na Palavra de Deus, fé incondicional, pronta e jubilosa, que a cena da Anunciação exprime com particular eloquência: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim, segundo a Tua palavra” (Lc 1, 38). E o Verbo encarnou e habitou entre nós! A Virgem Maria deu à luz um Filho, que as Escrituras Sagradas saudaram como o Emanuel, que significa Deus connosco (Cfr. Is. 7, 14; Matth. 1, 21-23).

3. Ó Mãe do Emanuel, “mostrai-nos Jesus bendito Fruto do Vosso ventre!”.

Toda a vida de Maria, de cujo seio se desprendeu e brilhou “a Luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo”(Io. 1, 9) se desenrola em comunhão intima com a de Jesus. “Levando, na terra, uma vida semelhante à do comum dos homens, cheia de cuidados domésticos e de trabalhos, Ela a todo o momento se mantinha unida a Seu Filho” (Apostolicam Actuositatem, 4), permanecendo na intimidade com o mistério do Redentor. Ao longo deste caminho de colaboração na obra redentora, a sua própria maternidade “veio a conhecer uma transformação singular, sendo cada vez mais cumulada de "caridade ardente" para com todos aqueles a quem se destinava a missão de Cristo”(Redemptoris Mater, 39) e para os quais e no Qual, se vê consagrada Mãe, aos pés da cruz: “Eis o teu filho”! Deste modo, tendo Ela gerado Cristo, Cabeça do Corpo Místico, deveria também gerar os membros do mesmo Corpo. Por isso “Maria abraça, com a sua nova maternidade no Espírito, todos e cada um dos homens na Igreja; e abraça também todos e cada um mediante a Igreja” (Redemptoris Mater, 47) . A Igreja, por sua vez, não cessa de lhos consagrar.

Exorto-vos, irmãos amados, a perseverar na devoção a Maria. Quanto mais vivemos e progredimos na atitude de entrega, tanto mais Maria nos aproxima das “insondáveis riquezas de Cristo”(Eph. 3, 8) e, deste modo, nos possibilita reconhecermos cada vez mais, em toda a sua plenitude, a nossa dignidade e o sentido definitivo da nossa vocação, porque “só Cristo revela plenamente o homem a si próprio” (Gaudium et spes, 22). Na maternidade espiritual de Maria, nós somos adoptados como filhos no Filho, o primogénito de muitos irmãos. Transcendemo-nos e libertamo-nos para formarmos uma família, autêntica comunidade humana, orientada para o seu destino último - o próprio Deus que “será tudo em todos” (1 Cor. 15, 28).

Maria, ajudai os vossos filhos nestes anos de Advento do Terceiro Milénio, a encontrarem, em Cristo, o caminho de regresso à Casa do Pai comum!

4. “Salve, ó Mãe Santa: Vós destes à luz o Rei que governa o céu e a terra pelos séculos sem fim”!

Nesta noite de Vigília, com as velas da fé acesas, a Igreja levanta para Vós uma ardente prece em favor dos homens, para que, com humilde disponibilidade e corajosa confiança, eles possam guiar-se pelos caminhos da salvação. Oà Mãe amada, auxiliai-nos neste deserto, vazio de Deus, onde parecem perdidas a nossa geração e a geração dos seus filhos, para que finalmente reencontrem e repousem nas Nascentes divinas das suas vidas.

No respeito das suas raízes cristãs e no desejo profundo de Jesus Cristo que se levanta no coração dos homens, queremos agora encontrar os caminhos que os povos do inteiro continente europeu devem percorrer. Abençoai, pois, Mãe de Igreja e Senhora de Fátima, a próxima Assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Europa.

O facto de Nossa Senhora ter escolhido este país para manifestar a Sua protecção materna pela humanidade é uma garantia de que Portugal manterá o que de mais precioso tem: a fé. A fé, luz suprema da humanidade! Que ela se reacenda cada vez mais forte e penetre as profundidades de alma deste povo querido e os diversos âmbitos sócio-culturais do seu viver! Que todos - adultos e anciãos, jovens e crianças -, à imitação do Vosso Coração Imaculado, se empenhem a perseverar num coração puro e firme, ao serviço do Evangelho!

Acolhei, ó Mãe de Deus e Mãe de todos os filhos de Eva, esta Vigília de Oração em vossa honra e para glória da Santíssima Trindade, Luz sem ocaso que os nossos passos demandam ansiosos e tantas vezes incertos. Virgem de Fátima, caminhai connosco! Rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte! Amém!  

 

13 de Maio de 1991 - Segunda-feira

Papa João Paulo II - Homilia no Santuário de Fátima
- in italiano qui

"Eis a tua Mãe” (Io. 19, 27)!

1. A Liturgia coloca hoje diante dos nossos olhos, queridos irmãos e irmãs, um vasto horizonte da história do homem e do mundo. As palavras do livro do Génesis trazem-nos ao pensamento a origem do universo, a obra da criação; do primeiro livro vamos ao último, o Apocalipse, para contemplar com os olhos da fé “um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido” (Apoc. 21, 19. Temos, pois, o principio e o fim; o Alfa e o Ómega (Cfr. ibid. 21, 6). Todavia o fim é um novo princípio, porque é a plena realização de tudo em Deus: “A morada de Deus com os homens” (Ibid. 21, 3).

Assim entre o primeiro princípio e este novo e definitivo começo, transcorre a história do homem criado por Deus “à Sua imagem”, como no-lo diz a Palavra do Senhor: “Deus criou o homem à Sua imagem; à imagem de Deus o criou; varão e mulher os criou”(Gen 1, 27).

2. No centro desta história do homem e do mundo, ergue-se a Cruz de Cristo sobre o Gólgota. O homem, criado varão e mulher, reencontra nesta Cruz a profundidade exacta do seu próprio mistério, que se revela nas palavras do Homem das dores à Sua Mãe, que estava junto da Cruz: “Mulher, eis o teu filho”! E em seguida dirigindo-se ao discípulo amado: “Eis a tua Mãe” (Io. 19, 26-27).

O homem, criado à imagem de Deus, é coroa de toda a criação. Confundido diante da sua grandeza, o Salmista desabafa:

“Fizeste-lo pouco menor que os anjos; / de glória e de honra o coroastes! / Destes-lhe poder sobre a obra das vossas mãos: / tudo submetestes a seus pés. / Ó Senhor, nosso Deus, / que é o homem para que Vos lembreis dele? / E o filho do homem para que dele cuideis?” (Ps. 8, 6-7. 2. 5.).

Que é o homem?

A pergunta do Salmista soa com uma estupefacção ainda mais profunda diante deste mistério que encontra o seu clímax no Gólgota. Que é o homem, se o Verbo, o Filho consubstancial ao Pai, se fez homem, Filho do Homem nascido da Virgem Maria por obra do Espírito Santo?

Que é o homem. ...se o próprio Filho de Deus, e simultaneamente verdadeiro homem, tomou sobre Si os pecados de todos os homens e os carregou, como Homem das dores, como Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, sobre o altar da Cruz?

Que é o homem? A admiração do Salmista diante da grandeza misteriosa do homem, tal como lhe aparece na obra da criação, torna-se ainda maior na contemplação da obra da Redenção.

Que é o homem?

3. Desde o início, ele foi constituído senhor da Terra, senhor do mundo visível. Mas a sua grandeza não se manifesta apenas no facto de sujeitar e dominar a Terra (cfr. Gen. 1, 28). A dimensão própria da sua grandeza é a glória de Deus: como escreverá Santo Ireneu, “a glória de Deus é o homem vivo, mas a vida do homem é a contemplação de Deus” (S. IrenaeiAdversus Haereses, IV, 20, 7). O homem está colocado no centro do mundo das criaturas visíveis e invisíveis, todas elas invadidas pela glória do Criador: proclamam a Sua glória.

E assim através da história do Cosmos visível (e invisível), se eleva, como um Templo imenso,um delineamento do Reino eterno de Deus. O homem - varão e mulher - foi colocado desde o início no meio deste Templo. Ele próprio se tornou a sua dimensão central, e verdadeira “morada de Deus com os homens”, já que foi por motivo e amor do homem que Deus entrou no mundo criado.

Caríssimos irmãos, a “morada de Deus com os homens” atingiu a sua culminância em Cristo. Ele é “a nova Jerusalém”(Cfr. Apoc. 21, 2) de todos os homens e povos, uma vez que n’Ele todos foram eleitos para os destinos eternos em Deus. É também o início do Reino eterno de Deus, na história do homem, e este Reino - n’Ele e por Ele - é a realidade definitiva do céu e da terra. É um “novo céu e uma nova terra”, onde “o primeiro céu e a primeira terra” encontrarão o seu pleno cumprimento.

4. Testemunha-o a Cruz no Gólgota, que é a Cruz da nossa Redenção. Na Cruz está patente toda a história do homem, que é simultaneamente a história do pecado e do sofrimento. Está marcada pelas lágrimas e pela morte, como o refere o Livro do Apocalipse: quantas lágrimas nos olhos humanos, quanto luto e lamento, quanta fadiga humana! (Cfr. ibid. 21, 4) E, no fim da existência terrena, a morte. Esta constituiu precisamente o progressivo desaparecimento “do primeiro céu e da primeira terra”, marcados pela herança do pecado.

Não é esta, porventura, a verdade de toda a história? Esta verdade não está confirmada - de modo particular - pelo nosso século, já a caminho do seu termo, conjuntamente com o Segundo Milénio da história depois de Cristo?

O nosso século confirma - talvez como nenhum outro até agora - a verdade das palavras do Salmista sobre o homem e a sua grandeza, e ao mesmo tempo a verdade do Apocalipse a propósito das lágrimas, do sofrimento e da morte. O homem tornou-se, mais que nunca, senhor da criação, dominando os elementos e as energias da natureza; mas contemporaneamentedemonstrou a potência avassaladora do pecado, o qual nasce no íntimo do homem, e frutifica em depravação, destruição e morte, levada até ao extremo de guerras totais, e de métodos que exterminam não apenas os indivíduos, mas povos e nações inteiras.

5. A Cruz de Cristo não cessa de o testemunhar! Entretanto só ela - esta Cruz de Cristo -perdura, através da história do homem, como sinal da certeza da Redenção.

Mediante a Cruz de seu Filho, Deus repete de geração em geração a Sua verdade acerca da criação: “Eis que Eu faço novas todas as coisas” (Apoc. 21, 5). O primeiro céu e a primeira terra continuam a passar... Perante eles, permanece Cristo indefeso, despojado de tudo no tormento mortal, Filho do Homem crucificado! E, no entanto, Ele não cessa de ser sinal da certeza vitoriosa da vida. Pela Sua morte, foi semeado, no seio da terra, o poder invencível da Vida Nova; a Sua morte é princípio de ressurreição:

“Onde está, ó morte, a tua vitória? / Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Cor. 15, 55).

Mediante a Cruz sobre o Gólgota, desce de junto de Deus, na história da humanidade, na história de cada século, “a cidade santa, a Nova Jerusalém... como esposa adornada para o seu esposo”(Apoc. 21, 2).

6. De coração profundamente comovido e maravilhado diante do plano criador e salvífico de Deus para realizar a plenitude a que Ele nos chamou, Eu, Peregrino convosco dessa Nova Jerusalém, vos exorto, queridos irmãos e irmãs, a acolher a Graça e o Apelo que neste lugar se sente mais palpável e penetrante, no sentido de ajustarmos os nossos caminhos aos de Deus. Saúdo-vos a todos, amados peregrinos de Nossa Senhora de Fátima, aqui presentes física ou espiritualmente. Mas de um modo especial a minha saudação cordial e deferente vai para o Senhor Presidente da República, nesta Terra de Santa Maria; saúdo afectuosamente o Senhor Bispo de Leiria-Fátima, Dom Alberto - a quem agradeço as amáveis palavras de Boas Vindas - e os demais veneráveis Irmãos no Episcopado aqui presentes. Una saudação fraterna portadora de esperança e encorajamento à Igreja de Angola, aqui presente na pessoa dos Pastores com um significativo número dos seus diocesanos, em romagem de gratidão à sua Padroeira, neste Ano Jubilar da sua Evangelização, iniciada em Soyo, local onde no século XV os portugueses pela primeira vez celebraram a Santa Missa e baptizaram os primeiros nativos daquele território.

Finalmente, movido pela Palavra de Deus nesta Celebração Eucarística - “varão e mulher os criou”! (Gen. 1, 27) - é-me grato exprimir às famílias a minha saudação propiciadora de todas as bênçãos de Deus para o vosso lar, os filhos e a vossa vida em comum. A vossa tarefa fundamental é realizar através da história a bênção originária do Criador - “crescei e multiplicai-vos” (Ibid. 1, 28) - transmitindo a “imagem divina” pela geração de novos filhos.

Queridas famílias: o vosso serviço generoso e respeitador da vida será possível hoje, como foi sempre, se vos detiverdes na contemplação da dignidade humana e sobrenatural dos filhos que gerais: cada homem é objecto do amor infinito de Deus que o resgatou. As famílias que não recusam os seus deveres relativos à procriação, dentro de um conveniente sentido de paternidade responsável e de confiança na Providência divina, dão ao mundo um insubstituível testemunho do mais alto valor. São um desafio à mentalidade antinatalista reinante, e uma justa condenação dessa mentalidade, que de tal modo nega a vida que chega a sacrificá-la, em muitos casos, ainda no seio materno, por meio do aborto, crime nefando, como declara o Concílio (cfr. Gaudium et Spes, 27). Peço-vos, pois, estimadas famílias, esse serviço generoso e respeitador da vida. “Contra o pessimismo e o egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada vida sabe descobrir o esplendor daquele "sim", daquele "Amém" que é o próprio Cristo (Cfr. 2 Cor. 1, 19; Apoc. 3, 14). Ao "não" que invade e aflige o mundo, contrapõe este "Sim" vivente, defendendo deste modo o homem e o mundo de quantos insidiam e mortificam a vida” (Familiaris Consortio, 30).

7. “Mulher, eis o Teu filho!” - “Eis a tua Mãe!”.

Santuário de Fátima é um lugar privilegiado, dotado de um valor especial: contém em si uma mensagem importante para a época que estamos a viver. É como se aqui, no início do nosso século, tivessem ressoado, com um novo eco, as palavras pronunciadas no Gólgota.

Maria, que estava junto da Cruz de Seu Filho, teve de acolher uma vez mais a vontade de Cristo, Filho de Deus. Mas enquanto, no Gólgota, o Filho lhe indicava um só homem, João, Seu discípulo amado, aqui Ela teve de os acolher a todos. Todos nós, os homens deste século e da sua difícil e dramática história.

Nestes homens do século XX, revelou-se com igual grandeza, quer a sua capacidade de subjugar a Terra, quer a sua liberdade de fugir ao mandamento de Deus e de o negar, como herança do seu pecado. A herança do pecado mostra-se como uma louca aspiração de construir o mundo - um mundo criado pelo homem -, “como se Deus não existisse”. E também como se não existisse aquela Cruz no Gólgota, onde “Morte e Vida se enfrentaram num duelo singular”, a fim de se manifestar que o amor é mais poderoso do que a morte, e que a glória de Deus é o homem vivo.

Mãe do Redentor! Mãe do nosso século!

Pela segunda vez, estou diante de Ti, neste Santuário, para beijar as Tuas mãos, porque estiveste firme junto da Cruz do teu Filho, que é a cruz de toda a história do homem, também do nosso século.

Estiveste e continuas a estar, pousando o Teu olhar nos corações destes filhos e filhas que pertencem já ao Terceiro Milénio. Estiveste e continuas a estar velando, com mil cuidados de Mãe, e defendendo, com Tua poderosa intercessão, o amanhecer da Luz de Cristo no seio de povos e nações.

Tu estás e permanecerás, porque o Filho Unigénito de Deus, Teu Filho, Te confiou todos os homens, quando ao morrer sobre a Cruz nos introduziu, no novo princípio de tudo quanto existe. A tua maternidade universal, ó Virgem Maria, é a âncora segura de salvação da humanidade inteira. Mãe do Redentor! Cheia de Graça! Eu Te saúdo, Mãe da confiança de todas as gerações humanas!